Porto Alegre - Quinta-feira, 21 de Março de 2019
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Bicho de Rua

Gatos? Claro...mas por que de raça?

Os critérios raciais não deveriam ser utilizados para a escolha de uma companhia animal, pelos mesmos motivos que não escolhemos nossos amigos com base em critérios raciais.

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Os critérios raciais não deveriam ser utilizados para a escolha de uma companhia animal, pelos mesmos motivos que não escolhemos nossos amigos com base em critérios raciais.

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Ao contrário dos gatos, saber a qual raça um cão pertence significa saber que ele pode ser pequeno como um chiwawa ou grande como um dogue-alemão, que será peludo como um sheep-dog ou pelado como um fox paulistinha, que será ativo como um whippet ou bonachão como um basset hound. Gatos, por outro lado, são relativamente homogêneos, diferindo principalmente em relação à pelagem.

A explicação para essa menor variabilidade de formas entre os gatos em relação aos cães encontra-se em um fato bastante simples (...) as diferentes raças de cães evoluíram ao longo de milhares de anos para desempenharem trabalhos para o ser humano.

Outros animais domesticados precisavam ser selecionados para produzir mais carne, mais leite, mais lã . . . Gatos, porém, jamais foram utilizados senão como animais de estimação e caçadores de ratos. Ao contrário dos cães e outros animais, gatos jamais se tornaram animais 100% domesticados, preservando muito mais de sua independência e características selvagens.

A domesticação do gato
A domesticação do gato ocorreu no Oriente Médio, mais precisamente no Crescente Fértil, entre o que hoje são o Iraque, a Síria e Israel, por volta de 10 - 9 mil anos atrás. Sua domesticação está associada ao início da agricultura. O armazenamento de grãos atraía ratos, que por sua vez atraiam predadores, entre eles uma espécie de gato selvagem, o Felis silvestris lybica. Os humanos, percebendo o benefício de manter esses predadores próximos aos silos, em um primeiro momento deixaram de afugentá-los, depois passaram a alimentá-los e então estes se tornaram menos ariscos ao contato com seres humanos.

Cinco mil anos após temos indícios da real domesticação dos gatos. No antigo Egito, os gatos deixam a condição de animais sinantrópicos e passam a ser comensais, coabitando efetivamente e gozando da estima dos seres humanos. No antigo Egito gatos tornaram-se divindades (a Deusa Bastet), havendo leis específicas que proibiam desrespeitá-los ou exportá-los para fora do império.

Embora essa proibição, gatos deixaram o Egito em navios fenícios, especialmente devido à sua utilização como caçadores de ratos. Assim, eles se espalharam pelo Mediterrâneo e, mais tarde, pela Europa. Há quase 2.500 anos gatos também foram levados para o Extremo Oriente e, devido à inexistência de espécies de gatos selvagens com os quais pudessem se cruzar nesses locais, sofreram isolamento reprodutivo, dando origem a novas linhagens de animais (gatos siameses, gatos persas, etc.).

Apesar da variabilidade surgida com os sucessivos cruzamentos realizados em todo o mundo, o que levou ao surgimento de linhagens hoje chamadas "raças", a verdade é que o nosso gato doméstico (Felis catus) não difere significativamente de seu precursor, o gato selvagem (Felis silvestris lybica). Ambas as espécies se cruzam entre si e sequer podem ser distinguidas geneticamente.

O que são gatos de raça?
Como no caso das raças humanas e das raças caninas, não há uma sustentação científica para o conceito de raças de gatos. Apenas cerca de uma dúzia de genes é responsável pelas diferenças na cor, comprimento e textura dos pelos, assim como por outras características mais sutis. Basicamente é isso o que permite distinguir uma linhagem de gatos de outras linhagens.

O que hoje são consideradas raças de gatos são, na verdade, linhagens de gatos artificialmente categorizadas em animais de pêlo longo, de pêlo curto e de pêlo ralo. Animais de pelagem lisa, de pelagem ondulada, de pelagem intermediária, de olhos castanhos, verdes, azuis, enfim, não são realmente raças, mas padrões de coloração e textura de tegumento.

Atualmente reconhece-se entre 60 e 250 diferentes raças de gatos, dependendo da sociedade felinofílica em questão. A maior parte dessas raças foi desenvolvidas a partir do século XIX, mediante o cruzamento aleatório ou seletivo de diferentes gatos, em sua maioria gatos sem raça definida com traços específicos, de modo a destacar as características consideradas desejáveis.

Essas características, porém, não dizem respeito a atributos que tornam a vida do animal melhor, senão que são atributos externos que quanto muito servem para selecionar animais diferentes e assim satisfazer o ego de seus proprietários em possuir animais mais ou menos peludos, de determinada cor de olho, etc.

Exceto por uma acentuada aparência externa, nada distingue uma "raça" de gatos da outra, e nada distingue um gato de raça de um gato sem raça. Uma pessoa que tenha em mãos um livro de raças de gatos não terá dificuldade em perceber que todos os gatos sem raça que ela conhece se encaixam no perfil de alguma das raças de gatos ali expostas.

A diferença básica entre gatos considerados sem raça e gatos considerados de raça está, então, na maior variabilidade genética presente nos gatos sem raça, o que possibilita que mesmo que um deles se cruze com um outro gato com aparência semelhante a sua, parte da ninhada não se pareça em nada com os pais.

No caso de gatos de raça, por serem resultado de sucessivos cruzamentos entre gatos com a mesma aparência, por muitas gerações, a possibilidade de que alguns filhotes da ninhada não se pareçam com os pais é menor.

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O preço da beleza
As pessoas buscam pelo diferente em padrões de gatos como buscam pelo diferente em objetos de decoração. No entanto, diferentes de objetos, gatos sofrem quando nascem ou vivem portando genes que não deveriam possuir. Os mesmos genes que dizem que gatos terão pernas curtas como a do munchkin ou longas como a do bengal, pelos longos como do persa ou curtos como o do sphynx, caudas longas como a do himalaio ou caudas curtas como a do manx e orelhas curtas como a do scottish fold, dizem que eles terão dificuldades em suas vidas.

A única explicação para que as pessoas tenham tal preocupação em preservar genes raros e muitas vezes deletérios em populações animais é que a preocupação nunca é de fato com o bem do animal. Uma pessoa que ama gatos pode ter um gato, ela não precisa de um sagrado da Birmânia ou de um devon rex. No entanto pessoas que fazem questão de gatos de raça não amam gatos, elas amam o status de possuir algo diferente como um animal com pedigree. Ora, elas que comprem um carro importado.

Quando um casal procura aconselhamento genético ele não quer selecionar filhos que nasçam com nanismo, hidrocefalia, albinismo, espinha bífida ou seis dedos na mão porque quando planejamos nossa família pensamos no bem das crianças e não em ter filhos que se destaquem na multidão. Selecionar gatos para que tenham pelagem bluepoint e encantadores olhos azuis, não se importando com seu estrabismo, é mesquinho, egoísta e fútil.

Gatis e pet shops são atividades comerciais que visam unicamente o lucro, e não o bem dos animais. Eles não pensarão duas vezes antes de cruzar animais aparentados, fazer fêmeas engravidarem seguidamente para produzirem uma vasta prole e descartarem no lixo filhotes que nasçam sem atender aos critérios raciais estipulados pelos clubes de felinofília. Clubes de felinofília e exposições de gatos, igualmente, são atividades vazias e sem nenhuma profundidade, voltadas para satisfazer o ego de pessoas fúteis que não amam realmente seus gatos.

Milhares de gatos vivem atualmente nas ruas das grandes cidades, muitos deles estão aprisionados em centros de controle de zoonoses e entidades que recolhem animais de rua. Pessoas que realmente amam animais não precisam gastar comprando animais, elas podem adquirir gratuitamente um animal de um desses abrigos, já castrado, e certamente estarão fazendo um bem para o animal.

Sérgio Greif - Biólogo, mestre em Alimentos e Nutrição, membro fundador da Sociedade Vegana, autor de livros, artigos e ensaios referentes à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação, à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano e aos direitos animais, entre outros temas.

Fonte: Olhar Animal – Para ler o artigo completo acesse o link abaixo.

 


Link Relacionado:

http://www.olharanimal.net/artigos/60-etica/37-gatos-claro-mas-por-que-de-raca

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