Porto Alegre - Sábado, 07 de Dezembro de 2019
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Morre Saramago, o escritor que amava as florestas e os animais

Morreu em junho de 2010, aos 87 anos, um dos maiores escritores da língua portuguesa, José Saramago. O autor deixou um legado de boas histórias e exemplos de proteção às florestas e aos animais.

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Morreu em junho de 2010, aos 87 anos, um dos maiores escritores da língua portuguesa, José Saramago. O autor deixou um legado de boas histórias e exemplos de proteção às florestas e aos animais.

Morreu em junho de 2010, aos 87 anos, um dos maiores escritores da língua portuguesa, José Saramago. O autor deixou um legado de boas histórias e exemplos de proteção às florestas e aos animais.

Em 25 de outubro de 2005, José Saramago lançou o primeiro livro impresso em papel e gráfica com certificação FSC no Brasil, "As Intermitências da Morte". O FSC, Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, tem o único sistema de certificação independente que adota padrões socioambientais internacionalmente de manejo florestal.

Para o lançamento dessa então nova obra, o escritor, primeiro de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998, pediu pessoalmente a suas editoras em todo o mundo que seguissem normas ambientalmente adequadas para produzí-la.

No mesmo dia, Saramago divulgou seu apoio à campanha de proteção da Amazônia do Greenpeace. O Greenpeace encoraja a indústria editorial em diversos países a deixar de usar papel cuja produção acarrete a destruição das florestas e a adotar práticas social e ambientalmente adequadas na utilização de produtos florestais, como o uso de papel reciclado ou certificado pelo FSC.

A iniciativa de Saramago representou um importante passo para o mercado editorial diminuir o impacto no desmatamento, estimulado pela demanda de papel para a produção do setor. Sua morte representa uma perda para a literatura e para as florestas.

José Saramago nasceu em Portugal, em 1922, e tornou-se um dos mais importantes escritores do mundo. Escreveu, entre outros, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento e Ensaio sobre a Cegueira. Sempre preocupado com as causas sociais, nos últimos anos contribuiu com o movimento socioambiental.

(fonte: Greenpeace)

A Racionalidade Irracional
José Saramago, em “Diálogos com José Saramago”

Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?

Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer.

Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixamos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.


Suzi - José Saramago e o caso da elefante Suzi
Tocado pelo caso de Suzi, uma elefante que estava morrendo de tristeza em um zoo de Barcelona, o famoso escritor português e ganhador do prêmio Nobel de Literatura escreveu um texto emocionante.

“Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espectáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos.

Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis.

Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera.

Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu respondo já. No zoológico de Barcelona há uma elefanta solitária que está morrendo de pena e das enfermidades, principalmente infecções intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais privados de liberdade. A pena que sofre, não é difícil imaginar, é consequência da recente morte de uma outra elefanta que com a Susi (este é o nome que puseram à triste abandonada) partilhava num mais do que reduzido espaço.

O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis patas deste animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação de que goza Barcelona comporta obrigações, e esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma delas.

Cuidar de Susi, dar-lhe um fim de vida mais digno que ver-se acantonada num espaço reduzidíssimo e ter de pisar esse chão do inferno que para ela é o cimento. A quem devo apelar? À direcção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?”

Saiba mais sobre a história de Suzi

 

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